A Figura do Guerreiro – Parte 1

•09/08/2011 • Deixe um comentário

Luís tinha muito orgulho da profissão exótica de seu pai. Adorava dizer aos colegas que o seu pai era antropólogo e que por isso viajava muito a vários países diferentes e distantes. Augusto, o pai de Luís, sempre voltava um pouco mudado depois de cada viagem, por mais curtas que fossem. Às vezes voltava doente, às vezes mais gordo, às vezes mais bronzeado, não importava qual fosse, sempre havia alguma mudança. Luís se divertia imaginando como estaria o pai antes de vê-lo chegar no aeroporto e se divertia mais ainda ao vê-lo desembarcar de suas viagens. Augusto também sempre trazia histórias novas pro seu filho. Contava sobre os animais que via, sobre as pessoas exóticas, as comidas de sabor curioso e sobre o que quer que ele houvesse ido fazer naquele país distante. Luís gravava em sua lembrança as memórias correspondentes a cada viagem com afinco e então as contava na escola e as contava com gosto especial ao seu melhor amigo Pedro. Havia, no entanto, algo que Luís gostava ainda mais que as mudanças do pai ou de suas histórias. Augusto sempre trazia presentes especiais para Luís e o filho amava cada um deles. Os presentes variavam sempre, mas não em um aspecto, eram sempre artesanatos típicos de cada região visitada. Luís admitia internamente que o pai tinha muito bom gosto e que sempre trazia presentes muito interessantes. De uma forma ou de outra, eles sempre refletiam o que havia de peculiar no país e ao mesmo tempo tinham algum significado que aproximava pai e filho.
Quando luís tinha 10 anos, seu pai voltou de uma viagem a um país muito distante no oriente. Luís sabia que as pessoas do oriente eram bem diferentes das que ele conhecia. Lembrava do pai dizer que eles tinha um forte espiritualismo ligado às suas culturas. Lembrava que eles eram todos parecidos, apesar de serem de países diferentes.
Augusto voltara mais lento, parecia estar falando um pouco mais devagar, quando voltou do país oriental. Luís ria da nova fala do pai.
“Trouxe um presente mais especial ainda, dessa vez filho” disse Augusto abraçando o filho, falando com seu novo ritmo de voz.
Luís sorriu de orelha a orelha, mas não teve coragem de perguntar. Não via nenhum pacote embrulhado em nenhum lugar da bagagem do pai. Só sobrava sua grande mochila.
O presente estava lá, Luís sabia. Queria ver, mas também adorava aquela ansiedade que lhe roía os ossos.
Por enquanto, iria rir com o pai e a mãe, escutaria as primeiras histórias intrigantes, e veria seu presente quando chegasse em casa.

Ao chegar em casa Luís desembrulhou o papel de seda delicadamente, revelando pouco a pouco o seu novo presente.
Ficou profundamente impressionado com o que viu.
Era um boneco vestindo uma imponente armadura e portando um par de espadas em duas bainhas muito bonitas presas à altura de seu quadril.
Tinha a mão esquerda pousada sobre a bainha da espada maior e a direita em volta do cabo da mesma.
A expressão em seu rosto era feroz e serena.
Luís o admirava de olhos arregalados e tocava aquela figura que transmitia poder e delicadeza.
O boneco devia ter pouco menos que duas vezes o tamanho da sua mão em palma.
Augusto explicava cada parte da armadura e da vestimenta conforme Luís pousava os olhos sobre elas.
Aquele presente certamente era mais especial que todos os outros que Luís já ganhara.
Agora, emergindo do transe em que havia entrado ao ver aquela figura, Luís pensou, “Tenho que mostrar isso ao Pedro!”
E no dia seguinte, na escola, foi o que ele fez.

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O Mago

•06/05/2011 • Deixe um comentário

O mago era um homem quase como se não o fosse.
Era mais como um mistério com forma humana.

O mago tinha uma aparência um tanto assustadora, apesar do fato de ser jovem. Seu rosto refletia serenidade e ao mesmo tempo uma intensa fúria latente. Não era um rosto convidativo, ou carismático. Era ideal para ele. Os cabelos eram castanhos e sempre muito curtos, pois ele os raspava em intervalos semanais. A barba sempre estava mal feita e de algum modo parecia demasiado áspera. As sobrancelhas eram grossas e curvadas como um arco. Os olhos fundos e escuros lembravam janelas fechadas que escondiam um segredo deveras tenebroso.
O mago sempre usava luvas. Luvas velhas que nunca cobriam as pontas de todos os dedos. Ele também sempre parecia usar roupas demais. Parecia sempre estar vestido para encarar o inverno.
Muitos não gostavam dele, muitos pediam sua ajuda e, todos, sem exceção, o temiam.
As crianças corriam ao avistá-lo e os adultos geralmente olhavam desconfiados até que ele saísse do campo de visão, às vezes gritavam para que ele fosse embora e ainda havia alguns que simplesmente entravam em suas casas e torciam para que o homem se afastasse logo.
Nas cidades pelas quais ele passava as pessoas sempre se perguntavam o que lhe dava vontade de viver, pois nada parecia trazer contento àquela criatura sombria e solitária. A explicação mais popular era a de que ele havia se envolvido e estudado as obscuridades do ocultismo e da magia a tal ponto que perdera parte do juízo juntamente com tudo que eventualmente possuíra antes, coisas que os homens comuns têm e difícilmente dispensam, como um lar e uma família para amar.
O mago parecia não gostar de dinheiro, nem de pessoas. Talvez ainda tivesse um pouco de afeição guardada para estas últimas, embora provavelmente a mantivesse bastante escondida dentro de si.
O mago ganhava dinheiro por matar pessoas.
Mas ele não matava qualquer indivíduo. Além disso, o mago não era um assassino de aluguel.
Segundo as palavras do próprio mago “O que eu faço é atenuar o sofrimento alheio”.
As pessoas lhe pagavam com dinheiro ou comida (e ele mais frequentemente preferia a comida, embora a recebesse com menor frequência) para que ele desse fim à vida de moribundos ou de qualquer outro que estivesse mergulhado em sofrimento e pronto para confrontar a morte.
Aqueles que estavam prestes a deixar o mundo dos vivos e que não estavam prontos para enfrentar a morte também arriscavam em pedir ao mago para lhes ajudar na travessia da realidade sólida e espinhenta, onde só havia dor e sofrimento, para a eternidade silenciosa, onde não só as pessoas esperavam, mas também onde o sinistro homem sem nome afirmava estar o descanso final.
O mago não prestava seus serviços a todo aquele que lhe pedisse por ajuda. Julgava as pessoas e só ajudava aquelas que acreditava que merecessem fim para seus sofrimentos. Ele permitia que os entes queridos do moribundo assistissem-no partir e permitia também que estes mesmos entes interrompessem seu ritual, se o achassem necessário.

“Siga a minha voz e me deixe ajudá-lo a sair daqui”, dizia o mago ao ouvido de seus clientes moribundosm, enquanto lhes segurava a mão, ou lhes punha a mão esquerda sobre a testa.
Seguido disto, em poucos instantes era possível escutar o último suspiro daquele que estava prestes a morrer.
Um suspiro de alívio, como o de alguém que entrega algo muito valoroso a outro em quem confia incondicionalmente.

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A Cabana Onírica

•30/12/2010 • 2 Comentários

Longe daqui, em um lugar que não podemos alcançar por mera força da vontade há um pântano de atmosfera estranha.

Veja bem, esse pântano não tem um cheiro comum, e seres comuns não vivem nele. Entre os seres estranhos que por lá vivem há uma senhora de idade desconhecida. O tempo lhe conferiu uma imagem indigna de sua personalidade, pois ela é bastante agradável, mas parece ser vil e cruel.

Ninguém sabe o nome da simpática senhora, mas a chamam de “A dona dos sonhos”. São deveras poucos os que conseguem uma oportunidade de visitar a estranha senhora em seu estranho pântano e estes poucos, não sabem realmente o que fizeram ou qual o caminho que percorreram para conhecer “A dona dos sonhos” e a sua humilde casa chamada “Cabana Onírica”.

A “Cabana” não é somente o lar da simpática senhora do pântano. É também uma loja! A aparência da cabana é muito simples e precária, porém, há algo nela, além da presença de sua moradora, que causa aos visitantes uma curiosa sensação de conforto.

O que é vendido nessa cabana? Ora, as mais diversas poções feitas pela própria dona da cabana. Poções de conteúdos difíceis de serem imaginados. Poções que são compradas por preço algum! Mas, que a gentil senhora não permite que sejam consumidas mais de uma vez por seus visitantes.

Há espalhados na cabana os mais variados potes de vidro, taças, garrafas e até mesmo barris das poções produzidas pela velhinha simpática. Aos visitantes, a anfitriã oferece produtos como “loção de alegria”, “suco de mágoa”, “licor de saudade” e assim em diante com praticamente um produto diferente para cada sentimento que somos capazes de experimentar durante a vida.

É verdade também, que dentre as pessoas que visitam a cabana, nenhuma volta a seja lá qual for o lugar de onde tenha vindo. Qualquer um que entre na cabana, não sai dela. O motivo pelo qual isso acontece é um mistério. E não há curiosos para se interessarem em sabê-lo!

As únicas coisas que interessam ali são o pântano com sua atmosfera exótica, a Cabana, feita de tábuas e cheia de vidros com conteúdos intrigantes e aquela simpática senhora de olhar gentil e voz confortante.

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As Crônicas de Lettoria – O Último Passeio (parte final)

•14/12/2010 • 1 Comentário

Às onze horas do dia 14 de dezembro um trem partiu da cidade de Lettoria para terras distantes bem mais ao norte. Dentro desse trem ia um jovem rapaz que observava a paisagem janela afora com olhos marejados. Seu nome era Rafael e ele há pouco deixara a primeira garota que amara e por quem fora amado em sua vida. Ela havia o visto ir, chorando enquanto ele lá dentro também chorava e acenava adeus.
Somente promessas haviam sobrado. Mas, era alguma delas concreta? Era alguma delas ao menos provável?
O destino tinha as respostas. E ele não as concederia antes do tempo certo.
E esse tempo certo, quando chegaria? Em semanas, em meses, anos?
Havia algo um pouco mais urgente.
Algo que poderia mudar drasticamente a vida de de Cecília em poucos meses.
Algo que jamais ela imaginara que ocorreria a ela.
Algo que a fazia sofrer antecipadamente.
E que também pertubava a Rafael.
Havia uma culpa avassaladora que mordia sua consciência e o perturbava. Sempre houvera uma solução para os dilemas de sua vida, pois seu pai tinha poder, dinheiro e influência. Mas, isto que ocorria agora talvez nem devesse chegar aos ouvidos de seu pai. Ou dos pais de Cecília.
Nenhuma certeza havia sobrado. A esperança havia fugido também. Mas, o sofrimento e a angústia pareciam à vontade o suficiente para dar as caras naquela situação.
As perspectivas de Rafael e Cecília agora eram no mínimo desfavoráveis, em qualquer que fosse o sentido.
E o que restaria a eles?
O que restaria deles?

Cecília Fraga abraçava-se aos prantos, solitária e triste na plataforma ferroviária, enquato outros econtros e desencontros por ali aconteciam. Chorava, enquanto um bocado de desespero lhe arranhava as entranhas e o trem de Rafel sumia com a distância.

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As Crônicas de Lettoria – O Último Passeio (parte 5)

•08/12/2010 • 2 Comentários

“-Você acha que alguém viu o que a gente fez? – Cecília perguntara a Rafael. Por alguma razão estranha aquela pergunta a divertia, ela lhe lançou um olhar vívido.
Antes de responder ele fez um sorriso maroto.
-Não sei. Talvez tenham visto. – disse e riu. – Se alguém viu, ganhou o dia, não foi? Acho que não foi algo ruim de ser ver! – terminou abrindo um sorriso grande.
Ela riu bastante.
-Tem razão. Se alguém viu, deve ter achado que ganhou o dia, afinal, pra presenciar algo tão bom . . .
-Sim . . .
E agora olhavam-se. Beijaram-se mais uma vez, porque se amavam muito e porque não queriam se separar.
Cecília o abraçou bem forte, recostou o rosto bem junto ao pescoço dele e suspirou.
Ela queria dizer “Volte, Rafa. Vá e depois volte para cá. Porque eu te amo muito.” e queria perguntar também “Você não vai me esquecer, vai Rafa? Me ama de verdade e vai tentar ficar junto de mim, não é? E se nós tivermos um filho? Você não vai me abandonar, não é?”.
E Cecília sentia-se muito mal por querer dizer tudo isso. Porque havia um peso nas palavras. E porque mesmo que ela lhe pedisse, e perguntasse agora, ele poderia mentir. Ou poderia até tentar falar a verdade, mas o destino poderia transformar as palavras dele em mentiras, fazendo as promessas voarem ao vento.
Por isso, Cecília decidiu falar somente “Eu te amo”.
E quando estava quase falando . . .
-Eu te amo muito, Cecília. – Ele falou. E soou verdadeiro. Soou tão verdadeiro que ela pôde sentir com seu coração a verdade nas palavras dele. E não era aquela, afinal, a resposta para suas aflições? Era, sim. Pelo menos por enquanto.
“Eu te amo muito, Cecília” . . . As palavras ecoavam na mente dela. A voz dele estava embargada. E agora ele segurava o choro. Mas, duas lágrimas caíram sobre a camisa que ela usava, que era não de outro, mas do próprio Rafael.
Ela o beijou no rosto. O rosto estava quente por causa do choro. Foi um beijo de consolo. Sim, porque ela percebera que ele também sofria e ela o amava, um beijo carinhoso como o de uma mãe seria algo bom para ele agora.
A mão dela passou por entre os cabelos dele e ela a manteve lá por alguns intantes, como fizera quando estavam se amando na praia.
-Vou estar lá amanhã pra ver você ir. E pra torcer que nós permaneçamos juntos. – a voz dela estava um pouco trêmula, mas não tanto quanto a dele.
Ele agora chorava realmente e não deu nenhuma resposta com palavras. Apenas assentiu, continuando a abraçá-la.
E então ele a levou até a porta de casa e ela se foi, beijando-o antes de fazê-lo.
Do mesmo jeito que ele iria dali a horas que seriam muito curtas.”

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