As Crônicas de Lettoria – O Último Passeio (Parte 3)
Rafael e Cecília sentaram juntos à beira do cais. Seus pés balançando poucos centímetros acima da água do mar. Agora não somente suas mãos estavam, mas também seus braços e rostos encostados um no outro.
-Você acha que volta em dois anos, não é? – disse Cecília.
-Se eu puder voltar antes, eu vou voltar. Depende de como as coisas com o papai terminarem. Ele está ansioso para me iniciar nos negócios da companhia.
-Você vai ficar muito ocupado . . . Como o seu pai . . . – ela falou num tom desesperançoso e encarou o olhar dele.
Sim, era verdade. O pai de Rafael era demasiadamente ocupado. Por isso quase não tinha tempo para sua família, ou mesmo para o filho. E caso Rafael fosse mergulhado naquele mundo – coisa essa que era simplesmente inevitável – a mesma solidão entorpecida pela vida intensa de trabalho tomaria conta dele, e o afastaria da volta a Lettoria, e consequentemente, de Cecília. E quanto aos dois anos que se passariam? Ao fim deles, Rafael já seria um jovem homem, do jeito que seu pai há tanto esperava. Tudo isso lhe veio à mente antes de ele a responder.
-Mas, eu sou diferente dele. Eu posso tentar não trabalhar tanto, ou quem sabe transferir um escritório da companhia para cá.
Ela absorveu as palavras. Queria muito que aquilo que ele dizia pudesse se tornar verdade, mas parecia improvável.
-Seu pai não pode lhe dar um cargo com menos responsabilidades e continuar a administrar a companhia como ele faz hoje? – ela perguntou.
Rafael pensou. Talvez seu pai pudesse lhe dar um cargo com menos responsabilidade que os principais cargos adminstrativos, os quais já estavam preenchidos por seus assistentes e sócios, mas duvidava que “menos responsabilidades” fosse significar “poucas responsabilidades”.
-Ele quer que eu comece a aprender como vai ser o meu futuro como presidente da companhia. Não quer que eu tenha poucas responsabilidades. . .
E então ele perceberam que havia algo de inquietante e triste naquela discussão. Cecília decidia agora que aquela conversa devia ser adiada. Não devia ser omitida, porque eles precisavam de uma promessa que acalmasse seus corações, mas agora não era a hora de terminá-la.
-Rafa, vamos deixar isso por enquanto, tá bom? – disse ela. Encarando-o quase de frente. E ele, que pretendia falar mais alguma coisa, se calou e olhou no fundo dos olhos dela.
Nessa hora o coração de Rafael bateu tão forte que o causou um pouco de medo. Foi como se de repente Cecília o tivesse feito entender algo muito intenso e muito agradável, porém, era algo que necessitava um bocado de coragem para ser descoberto. E Rafael, não por acaso, encontrou uma coragem escondida em alguma parte de si, esperando pra ser usada.
-Aham. Não vamos falar disso agora. – respondeu num tom muito baixo. O assunto anterior já quase completamente esquecido e agora seus rostos se aproximavam.
Rafael pôs a mão direita no pescoço de Cecília, seus rostos já estavam muito próximos, o toque primeiramente foi gelado, mas logo ele pôde sentir o calor que vinha da pele dela.
Eles fecharam os olhos e se beijaram.
Seus lábios se tocaram suavemente ao soprar do vento e ao cair da chuva.
Eles se aproximaram mais um do outro e o beijo passou a ser mais intenso. Trovões soavam e brilhavam violentos acima de suas cabeças, agora pareciam fogos de artifício, comemorando aquela cena.
Todo o resto do mundo era esquecido por Rafael e Cecília.
Somente eles existiam. Um para o outro.
Para se amarem naquele momento.
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Ahhhnnnnn *-*
É tão triste e tão romântico que eu, representando um leitor, não sei se me sinto feliz ou triste ao final do conto.
Parabéns de novo!