O Mago

O mago era um homem quase como se não o fosse.
Era mais como um mistério com forma humana.

O mago tinha uma aparência um tanto assustadora, apesar do fato de ser jovem. Seu rosto refletia serenidade e ao mesmo tempo uma intensa fúria latente. Não era um rosto convidativo, ou carismático. Era ideal para ele. Os cabelos eram castanhos e sempre muito curtos, pois ele os raspava em intervalos semanais. A barba sempre estava mal feita e de algum modo parecia demasiado áspera. As sobrancelhas eram grossas e curvadas como um arco. Os olhos fundos e escuros lembravam janelas fechadas que escondiam um segredo deveras tenebroso.
O mago sempre usava luvas. Luvas velhas que nunca cobriam as pontas de todos os dedos. Ele também sempre parecia usar roupas demais. Parecia sempre estar vestido para encarar o inverno.
Muitos não gostavam dele, muitos pediam sua ajuda e, todos, sem exceção, o temiam.
As crianças corriam ao avistá-lo e os adultos geralmente olhavam desconfiados até que ele saísse do campo de visão, às vezes gritavam para que ele fosse embora e ainda havia alguns que simplesmente entravam em suas casas e torciam para que o homem se afastasse logo.
Nas cidades pelas quais ele passava as pessoas sempre se perguntavam o que lhe dava vontade de viver, pois nada parecia trazer contento àquela criatura sombria e solitária. A explicação mais popular era a de que ele havia se envolvido e estudado as obscuridades do ocultismo e da magia a tal ponto que perdera parte do juízo juntamente com tudo que eventualmente possuíra antes, coisas que os homens comuns têm e difícilmente dispensam, como um lar e uma família para amar.
O mago parecia não gostar de dinheiro, nem de pessoas. Talvez ainda tivesse um pouco de afeição guardada para estas últimas, embora provavelmente a mantivesse bastante escondida dentro de si.
O mago ganhava dinheiro por matar pessoas.
Mas ele não matava qualquer indivíduo. Além disso, o mago não era um assassino de aluguel.
Segundo as palavras do próprio mago “O que eu faço é atenuar o sofrimento alheio”.
As pessoas lhe pagavam com dinheiro ou comida (e ele mais frequentemente preferia a comida, embora a recebesse com menor frequência) para que ele desse fim à vida de moribundos ou de qualquer outro que estivesse mergulhado em sofrimento e pronto para confrontar a morte.
Aqueles que estavam prestes a deixar o mundo dos vivos e que não estavam prontos para enfrentar a morte também arriscavam em pedir ao mago para lhes ajudar na travessia da realidade sólida e espinhenta, onde só havia dor e sofrimento, para a eternidade silenciosa, onde não só as pessoas esperavam, mas também onde o sinistro homem sem nome afirmava estar o descanso final.
O mago não prestava seus serviços a todo aquele que lhe pedisse por ajuda. Julgava as pessoas e só ajudava aquelas que acreditava que merecessem fim para seus sofrimentos. Ele permitia que os entes queridos do moribundo assistissem-no partir e permitia também que estes mesmos entes interrompessem seu ritual, se o achassem necessário.

“Siga a minha voz e me deixe ajudá-lo a sair daqui”, dizia o mago ao ouvido de seus clientes moribundosm, enquanto lhes segurava a mão, ou lhes punha a mão esquerda sobre a testa.
Seguido disto, em poucos instantes era possível escutar o último suspiro daquele que estava prestes a morrer.
Um suspiro de alívio, como o de alguém que entrega algo muito valoroso a outro em quem confia incondicionalmente.

Todos os direitos reservados*

~ por André Serrão em 06/05/2011.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.