A Figura do Guerreiro – Parte 1
Luís tinha muito orgulho da profissão exótica de seu pai. Adorava dizer aos colegas que o seu pai era antropólogo e que por isso viajava muito a vários países diferentes e distantes. Augusto, o pai de Luís, sempre voltava um pouco mudado depois de cada viagem, por mais curtas que fossem. Às vezes voltava doente, às vezes mais gordo, às vezes mais bronzeado, não importava qual fosse, sempre havia alguma mudança. Luís se divertia imaginando como estaria o pai antes de vê-lo chegar no aeroporto e se divertia mais ainda ao vê-lo desembarcar de suas viagens. Augusto também sempre trazia histórias novas pro seu filho. Contava sobre os animais que via, sobre as pessoas exóticas, as comidas de sabor curioso e sobre o que quer que ele houvesse ido fazer naquele país distante. Luís gravava em sua lembrança as memórias correspondentes a cada viagem com afinco e então as contava na escola e as contava com gosto especial ao seu melhor amigo Pedro. Havia, no entanto, algo que Luís gostava ainda mais que as mudanças do pai ou de suas histórias. Augusto sempre trazia presentes especiais para Luís e o filho amava cada um deles. Os presentes variavam sempre, mas não em um aspecto, eram sempre artesanatos típicos de cada região visitada. Luís admitia internamente que o pai tinha muito bom gosto e que sempre trazia presentes muito interessantes. De uma forma ou de outra, eles sempre refletiam o que havia de peculiar no país e ao mesmo tempo tinham algum significado que aproximava pai e filho.
Quando luís tinha 10 anos, seu pai voltou de uma viagem a um país muito distante no oriente. Luís sabia que as pessoas do oriente eram bem diferentes das que ele conhecia. Lembrava do pai dizer que eles tinha um forte espiritualismo ligado às suas culturas. Lembrava que eles eram todos parecidos, apesar de serem de países diferentes.
Augusto voltara mais lento, parecia estar falando um pouco mais devagar, quando voltou do país oriental. Luís ria da nova fala do pai.
“Trouxe um presente mais especial ainda, dessa vez filho” disse Augusto abraçando o filho, falando com seu novo ritmo de voz.
Luís sorriu de orelha a orelha, mas não teve coragem de perguntar. Não via nenhum pacote embrulhado em nenhum lugar da bagagem do pai. Só sobrava sua grande mochila.
O presente estava lá, Luís sabia. Queria ver, mas também adorava aquela ansiedade que lhe roía os ossos.
Por enquanto, iria rir com o pai e a mãe, escutaria as primeiras histórias intrigantes, e veria seu presente quando chegasse em casa.
Ao chegar em casa Luís desembrulhou o papel de seda delicadamente, revelando pouco a pouco o seu novo presente.
Ficou profundamente impressionado com o que viu.
Era um boneco vestindo uma imponente armadura e portando um par de espadas em duas bainhas muito bonitas presas à altura de seu quadril.
Tinha a mão esquerda pousada sobre a bainha da espada maior e a direita em volta do cabo da mesma.
A expressão em seu rosto era feroz e serena.
Luís o admirava de olhos arregalados e tocava aquela figura que transmitia poder e delicadeza.
O boneco devia ter pouco menos que duas vezes o tamanho da sua mão em palma.
Augusto explicava cada parte da armadura e da vestimenta conforme Luís pousava os olhos sobre elas.
Aquele presente certamente era mais especial que todos os outros que Luís já ganhara.
Agora, emergindo do transe em que havia entrado ao ver aquela figura, Luís pensou, “Tenho que mostrar isso ao Pedro!”
E no dia seguinte, na escola, foi o que ele fez.
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